segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Sumbi: Um eterno clássico dos Kapa Dêch

Moçambique já teve bons momentos em termos de espectáculos e outras manifestações artísticas que arrastavam massas e deixavam-nos felizes e orgulhosos. Era comum, antes da era dos influencers e entertainers, ver verdadeiros espectáculos em campos de futebol e outros locais longe das grandes cidades, onde muitos de nós aprendemos a sonhar.

Naquela fome e sede de se libertar dos traumas da guerra, vibrávamos até de ouvir o som mesmo do lado de fora, pela idade e limitações financeiras, mas não deixava de ser fantástico viver aquele ambiente de festa só de ouvir que um artista ou uma banda iria actuar. O campo de futebol do Nova Aliança, na Maxixe, acolheu alguns destes momentos e eu presenciei alguns de que me orgulho até hoje.

Roberto Isaías é um músico da terra que me viu nascer, Maxixe, lá em Inhambane, terra de boa gente. Tive o privilégio de ouvi-lo e conhece-lo naqueles times do “Quiosque o Veleiro” e “Licoloma”. Ah Deus, que saudades!

“Sumbi” nasceu por lá, mas foi depois que a pude compreender, até porque nos tempos não tinha por que me preocupar com o historial da música. Hoje, quando olho para mim e para o passado, percebo o quão estamos diante de um clássico que deveria ser eternizado entre a nova geração como uma canção educativa até em manuais escolares pelos valores que transporta.

Temos muita apetência para olhar para o outro que nos esquecemos de nós, dos nossos valores, dos nossos méritos, das boas coisas que nos rodeiam das nossas lutas, da família, dos amigos e de muitas outras coisas. Queremos sempre o além, o que voa, porque não temos controlo, estamos mais preocupados pelo futuro que perdemos a noção de tempo e espaço, do belo e do prazeroso.

Sumbi, singui u si dogorelago...

O verso introdutório ataca um dos grandes males dos nossos dias que já em tempos estava a mostrar claros sinais de ser uma tendência juvenil o marandizmo. Talvez até seja uma tendência natural, porém, nos nossos dias é tamanha a cobiça que quase ninguém se mostra feliz e orgulhoso pelo que tem. Queremos sempre mais e mais até o que não podemos. Queremos por querer e não para satisfazer uma necessidade tão preponderante na nossa vida!

Yina vbindra kamboye, una yi landra khu huane…

Literalmente, o verso refere-se ao pecado de deixarmos de nos focar ao que temos, o presente, e pagarmos o preço de ter que perseguir ‘o comboio’, um meio de transporte que tem estações (paragens) e não pára pelo caminho, após iniciar a marcha. Quantas vezes nos arrependemos de um casamento após um divórcio, uma separação, uma oportunidade perdida, uma amizade desfeita, gastos desnecessários, tempo perdido, expectativas exacerbadas sobre alguém ou alguma coisa e bem mais? Por que será que não aprendemos a viver cada momento como único, especial e valioso para nós em primeiro lugar?

Sumbi yo, rula monyo wagu!”

Isaías, o Roberto, convida à Sumbi para se acalmar, para buscar a paz, a harmonia e a estabilidade do lado de quem a quer bem, mais do que tudo na vida. Acalma-te e contempla ao teu redor pessoas que te fazem bem. Acalma-te e aceita a convite para cá vir usufruir da paz que só ‘quem te ama de verdade te pode proporcionar’.

“Sumbinya, rula monyo wagu…”

Roberto reitera, recorrendo ao diminutivo em língua local, o que, de certo modo, reduz Sumbi à pequenez da alma de uma criança inocente, aquelas que são felizes por tudo e nada. Seria ousado se depois deste gesto carinhoso a Sumbi se recusasse a ‘ceder’ e acatar o tão desejado convite.

Unga nyi guiri nyi tutuma, nyi fana ni viyawu mayo…

Aqui paira algo, para mim, incrível, quantas vezes vivemos em função dos desejos dos outros, queremos agradar e fazer felizes aos outros, mais do que a nós próprios. Isaías implora que Sumbi não a remeta às correrias para, certamente satisfaze-la, pois ele não é, literalmente, um avião e assume-se, ser limitado, ao que podemos subentender nas suas condições financeiras e outras para poder proporcionar um bem-bom à sua amada, a Sumbi.

“Ethu hagu duana… gu resa gu tsaka ga valongo…”

Roberto recorda que as lutas que trava no seu quotidiano, entre o trabalho árduo e outros afazeres em busca de rendimento, têm um fundo a não ignorar, devolver a alegria e tranquilidade à família e não satisfazer caprichos momentâneos e passageiros. É aqui muito forte o sentido de família de prover, de satisfazer e partilhar o que cada um consegue colher, típico de famílias tradicionais no sul de Moçambique!

…delu uta khala kheno…

A linda composição termina com um convite à Sumbi para se juntar à ‘nossa causa’, afinal juntos somos o que somos, em família, no grupo de amigos do bairro, entre colegas de serviço e em outras equipas. Roberto implora que Sumbi aceda ao convite e busque a sua felicidade do seu lado.

Enfim, momentos bons são sempre acompanhados de cânticos e música boa, esta é uma das peculiaridades da cultura moçambicana, algo que se tem estado a perder no seio de muitas famílias dando lugar aos smartphones e tablets, algo que não é, de todo mal, se explorados tendo em conta a perpectiva humanizadora da sociedade.

Sumbi, de Roberto Isaías, dos Kapa Dêch, é mais do que uma música popular, é, ou pelo menos deveria ser, a par de “Lalani”, “Udi sengwa”, “Doropa”, “Mutorotoro” e muitas outras Dos Kapa Dech, símbolo de uma geração que muito fez para, por via da música, espalhar amor e esperança que inspirou muitos jovens a buscar o que hoje conquistaram.

Bem-haja a boa música moçambicana!

 

Antero de Almeida

NHANTUMBO

domingo, 19 de fevereiro de 2023

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Passamos todos dias bons e maus, Momentos de alegria e de delicadeza! Ninguém sabe quando dura um sorriso, Nem em quanto tempo secará uma ...