Moçambique já teve bons momentos em termos de espectáculos e outras manifestações artísticas que arrastavam massas e deixavam-nos felizes e orgulhosos. Era comum, antes da era dos influencers e entertainers, ver verdadeiros espectáculos em campos de futebol e outros locais longe das grandes cidades, onde muitos de nós aprendemos a sonhar.
Naquela fome e sede de se libertar dos traumas da guerra,
vibrávamos até de ouvir o som mesmo do lado de fora, pela idade e limitações
financeiras, mas não deixava de ser fantástico viver aquele ambiente de festa
só de ouvir que um artista ou uma banda iria actuar. O campo de futebol do Nova
Aliança, na Maxixe, acolheu alguns destes momentos e eu presenciei alguns de
que me orgulho até hoje.
Roberto Isaías é um músico da terra que me viu nascer,
Maxixe, lá em Inhambane, terra de boa gente. Tive o privilégio de ouvi-lo e
conhece-lo naqueles times do
“Quiosque o Veleiro” e “Licoloma”. Ah Deus, que saudades!
“Sumbi” nasceu por lá, mas foi depois que a pude
compreender, até porque nos tempos não tinha por que me preocupar com o
historial da música. Hoje, quando olho para mim e para o passado, percebo o
quão estamos diante de um clássico que deveria ser eternizado entre a nova
geração como uma canção educativa até em manuais escolares pelos valores que
transporta.
Temos muita apetência para olhar para o outro que nos
esquecemos de nós, dos nossos valores, dos nossos méritos, das boas coisas que
nos rodeiam das nossas lutas, da família, dos amigos e de muitas outras coisas.
Queremos sempre o além, o que voa, porque não temos controlo, estamos mais
preocupados pelo futuro que perdemos a noção de tempo e espaço, do belo e do
prazeroso.
“Sumbi, singui u si
dogorelago...”
O verso introdutório ataca um dos grandes males dos
nossos dias que já em tempos estava a mostrar claros sinais de ser uma
tendência juvenil o marandizmo.
Talvez até seja uma tendência natural, porém, nos nossos dias é tamanha a
cobiça que quase ninguém se mostra feliz e orgulhoso pelo que tem. Queremos
sempre mais e mais até o que não podemos. Queremos por querer e não para
satisfazer uma necessidade tão preponderante na nossa vida!
“Yina vbindra
kamboye, una yi landra khu huane…”
Literalmente, o verso refere-se ao pecado de deixarmos de
nos focar ao que temos, o presente, e pagarmos o preço de ter que perseguir ‘o
comboio’, um meio de transporte que tem estações (paragens) e não pára pelo
caminho, após iniciar a marcha. Quantas vezes nos arrependemos de um casamento
após um divórcio, uma separação, uma oportunidade perdida, uma amizade
desfeita, gastos desnecessários, tempo perdido, expectativas exacerbadas sobre
alguém ou alguma coisa e bem mais? Por que será que não aprendemos a viver cada
momento como único, especial e valioso para nós em primeiro lugar?
“Sumbi yo, rula monyo wagu!”
Isaías, o Roberto, convida à Sumbi para se acalmar, para
buscar a paz, a harmonia e a estabilidade do lado de quem a quer bem, mais do
que tudo na vida. Acalma-te e contempla ao teu redor pessoas que te fazem bem. Acalma-te
e aceita a convite para cá vir usufruir da paz que só ‘quem te ama de verdade
te pode proporcionar’.
“Sumbinya, rula monyo wagu…”
Roberto reitera, recorrendo ao diminutivo em língua
local, o que, de certo modo, reduz Sumbi à pequenez da alma de uma criança
inocente, aquelas que são felizes por tudo e nada. Seria ousado se depois deste
gesto carinhoso a Sumbi se recusasse a ‘ceder’ e acatar o tão desejado convite.
“Unga nyi guiri nyi
tutuma, nyi fana ni viyawu mayo…”
Aqui paira algo, para mim, incrível, quantas vezes
vivemos em função dos desejos dos outros, queremos agradar e fazer felizes aos
outros, mais do que a nós próprios. Isaías implora que Sumbi não a remeta às
correrias para, certamente satisfaze-la, pois ele não é, literalmente, um avião
e assume-se, ser limitado, ao que podemos subentender nas suas condições
financeiras e outras para poder proporcionar um bem-bom à sua amada, a Sumbi.
“Ethu hagu duana… gu resa gu tsaka ga valongo…”
Roberto recorda que as lutas que trava no seu quotidiano,
entre o trabalho árduo e outros afazeres em busca de rendimento, têm um fundo a
não ignorar, devolver a alegria e tranquilidade à família e não satisfazer
caprichos momentâneos e passageiros. É aqui muito forte o sentido de família de
prover, de satisfazer e partilhar o que cada um consegue colher, típico de
famílias tradicionais no sul de Moçambique!
“…delu uta khala
kheno…”
A linda composição termina com um convite à Sumbi para se
juntar à ‘nossa causa’, afinal juntos somos o que somos, em família, no grupo
de amigos do bairro, entre colegas de serviço e em outras equipas. Roberto
implora que Sumbi aceda ao convite e busque a sua felicidade do seu lado.
Enfim, momentos bons são sempre acompanhados de cânticos
e música boa, esta é uma das peculiaridades da cultura moçambicana, algo que se
tem estado a perder no seio de muitas famílias dando lugar aos smartphones e tablets, algo que não é, de todo mal, se explorados tendo em conta
a perpectiva humanizadora da sociedade.
Sumbi, de Roberto Isaías, dos Kapa Dêch, é mais do que
uma música popular, é, ou pelo menos deveria ser, a par de “Lalani”, “Udi
sengwa”, “Doropa”, “Mutorotoro” e muitas outras Dos Kapa Dech, símbolo de uma
geração que muito fez para, por via da música, espalhar amor e esperança que
inspirou muitos jovens a buscar o que hoje conquistaram.
Bem-haja a boa música moçambicana!
Antero de Almeida
NHANTUMBO
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