20 anos após a publicação, decidi revisitar a Agenda
2025 e achei este, de entre os 4 cenários desenhados pela competente equipa, o Comité
de Conselheiros, interessante não só pelo sugestivo título, mas também o conteúdo descrito. Transcrevo, fielmente, 'sem por nem tirar nenhuma vírgula':
🧘🏽♂️
Cenário - do Cabrito
Este cenário foi construído com base na simulação da
alteração da variável Paz, Estabilidade Política e Social. A prática
sistemática da exclusão social, o crescimento sucessivo das desigualdades
sociais e regionais com base em critérios unilateralmente definidos, leva a que
a distância para uma eventual guerra é de apenas um passo. A História de Moçambique
demonstrou que a exclusão social sistemática a que os moçambicanos foram
votados durante o regime colonial provocou uma revolta colectiva que,
facilmente,
se transformou na luta armada para a Independência de
Moçambique.
Nos nossos dias, a corrupção está a alastrar-se,
provocando a falta de iniciativa e o espírito do deixa-andar que resultam no
trabalhar o menos possível para se obterem súbitos e elevados rendimentos e
lucros, frequentemente ilícitos. Com a corrupção vem a exclusão social
afectando, primeiro, os mais pobres e mais fracos e, a seguir, aqueles que não
aceitam colaborar com os corruptos para, mais tarde, se verificar a exclusão de
todos os que não agem da mesma maneira ou não trabalham para o engrandecimento
de um determinado actor de momento. Se esta situação não
for controlada, poderá provocar instabilidade social, cujo crescimento pode
fazer perigar a paz.
A falta de tolerância e de respeito pelas opiniões
contrárias, a tendência para excluir outros com base na opção política, na base
do nível social ou económico, ou com base na região, nas etnias, línguas,
crenças religiosas, raça ou na cor da pele, ou mesmo por simples conveniência
pessoal, continua sendo uma realidade visível no nosso País.
Por isso, não é de excluir esta hipótese de cenário. Tal
como noutros países africanos, rapidamente se pode passar de um confronto
verbal, mais ou menos agressivo, para uma situação de violência generalizada e
incontrolável, mesmo, para os próprios dirigentes, qualquer que seja o seu
partido ou tendência política. Os trágicos acontecimentos de Montepuez e outros
são de ocorrência recente e todos os moçambicanos se devem unir contra estes
actos que destroem vidas e bens, consomem energias, recursos financeiros e nos
desviam das tarefas essenciais de construção do bem-estar do País.
Porque o fenómeno da corrupção e da exclusão tem sido
popularmente identificado com a simbologia popular do cabrito que come tudo
onde está amarrado, convencionou-se designar este cenário como o do cabrito. É
um cenário que se caracteriza como sendo o da instabilidade social, da
confrontação e eventual guerra. Neste ambiente, a corrupção aumenta, os níveis
de produção ressentem-se em baixa, os custos elevam-se, a competitividade baixa
e o desemprego aumenta. Ao se manterem tais incertezas e tendências, a guerra
pode voltar e com ela a desgraça, a morte e o aumento da pobreza
absoluta. Se tal acontecer, o País vai retroceder ainda
mais, a situação será para todos
pior.
A projecção comparativa para as 7 variáveis determinantes
seleccionadas, caso o cenário do cabrito se venha a concretizar, mostra que em
todas elas se verifica um retrocesso. Poderá generalizar-se um clima de
instabilidade social, o desenvolvimento rural será
o primeiro a ser afectado e o País poderá regredir para uma
situação similar à de 1992, aquando do fim da guerra, cujas consequências
nefastas, cada um dos moçambicanos guarda tristemente na memória.
A situação das variáveis seleccionadas no domínio do
Capital Humano também sofrerá retrocesso. A educação, tal como aconteceu
durante a guerra pós-independência, terá muito menor abrangência e a crise de
valores morais, sociais e cívicos terá efeitos negativos sobre a formação
integral da criança, do jovem e do adulto Moçambicanos. A acção dos serviços de
saúde será reduzida a um número cada vez menor de cidades e vilas e não haverá
recursos nem condições para se estender a um número cada vez maior de cidadãos.
A violência verbal ou armada desperdiça meios, gasta
energias e é totalmente improdutiva.
Na simulação efectuada, o conjunto do capital social é o
que menos será afectado, tal não se devendo, porém, a eventuais vantagens da
instabilidade social generalizada e à eventual guerra, mas sim à adopção de
mecanismos de defesa aos níveis familiar e comunitário. O conjunto das
variáveis determinantes referidas no âmbito do Capital Humano é igualmente
afectado.
A pequena diferença que se verifica deve-se tão somente
ao baixo nível de desenvolvimento em que o País se encontra. Nos restantes
conjuntos de variáveis determinantes, os retrocessos serão significativos, com
particular destaque para os domínios da boa governação e os das variáveis
transversais.
Todavia, o acesso à terra será afectado e surgirão os
“sem terra” em virtude da corrupção e da instabilidade provocada pelo clima de
violência. Em relação à família, seus valores tradicionais e instituições
locais, possivelmente permanecerão na mesma, pois, como normalmente acontece em
situações de crise, essa será a única via de sobrevivência colectiva.
No cenário do cabrito, em relação às variáveis
seleccionadas no âmbito económico, haverá um retrocesso significativo no
domínio macroeconómico devido ao aumento das despesas na área da defesa e da
segurança, os níveis de poupanças e de investimento cairão bastante e as poucas
infraestruturas que existem ficarão ainda mais degradadas, tornando-se difícil
a sua reabilitação.
A única variável determinante que, possivelmente, continuará
aos níveis próximos dos actuais é a da produção e da competitividade, não
porque um clima de guerra contribua para o aumento da produção, uma vez que
Moçambique não tem indústria bélica, mas porque os níveis de produção tenderão
a manter-se e verificar-se-á, entretanto, uma tendência para aumentarem as
assimetrias entre as zonas que, eventualmente, estiverem em guerra e as zonas
onde a guerra ainda não tiver chegado.
Evidentemente, a democracia e a participação do cidadão
nos processos de tomada de decisão deixarão de se exercer plenamente e a
legalidade será definida pela força das armas e do mais forte não sendo
reconhecidas as instituições do Estado nem o quadro legal a que elas estão
sujeitas.
In Agenda 2025: Visão e Estratégias da Nação (2003)
Capítulo 3: Páginas 86 - 87
https://www.mef.gov.mz/index.php/publicacoes/agenda-2025/83-agenda-2025/file
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